O futebol como um fenômeno da cultura brasileira

As coisas só acontecem por acaso, necessidade ou vontade nossa! Epicuro - filósofo.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A poesia e a bola


Como todos nós sabemos, conforme aprendemos na escola, há o mundo da natureza e o mundo da cultura. O mundo natural é aquele regido por leis que nada tem a ver com a presença do homem na terra. Até porque o mundo natural é infinito – maior que a terra, portanto - e vive em permanente expansão segundo nos afiançam a Física e a Astronomia. O mundo natural, assim, existe à revelia das vaidades e vontades humanas, tem suas próprias leis e, na falta de melhor explicação plausível para sua origem e finalidade, entregamos a Deus o seu destino.
Já o mundo da cultura, por seu turno, é erigido a nossa imagem e semelhança. Isto é, existe a depender da ação do homem sobre a natureza. Assim, racional ou irracional, organizada ou desorganizada, esta ação atira sobre nós mesmos o ônus do nosso destino e, por conseguinte, para facilitar a nossa caminhada aqui no planeta, tendemos a enfeixar em alguns distintos campos de conhecimento, os nossos registros de cultura. Portanto, para adaptar a natureza às nossas necessidades humanas de sobrevivência eis a ciência; para conformar as necessidades humanas à natureza eis a arte e para convocar a natureza aos limites do homem, eis o esporte. Quando, pois, o esporte é praticado com pretensões maiores que a simples vontade de superação dos próprios limites do homem, ele se encontra com a arte. É este, por exemplo, o caso do futebol brasileiro, um esporte que acolhemos de outra cultura (a inglesa), mas que praticamos como ninguém, elevando-o à categoria de arte e imprimindo nele potencialidades estéticas inenarráveis.
Assim, ao ter passado a vista acima, no título destas linhas, você, leitor arguto, aquele que pela inteligência e leveza de espírito é já um diferencial na esteira das opiniões correntes, deve ter-se perguntado: mas o que tem a ver poesia com bola? Ou, melhor, o que diabo tem a ver a arte de Orfeu e Anfion com as peripécias esféricas de Pelé e Garrincha? E eu te responderei, leitor arguto, que tem sim. Que a relação de uma arte com a outra é direta e cristalina. E direi ainda, a título de explicação, que essa relação começa por um fator de semelhança e outro de diferença. Esclareceremos.
Desçamos primeiro ao fator de diferença: a poesia, no seu sentido estrito, é hoje a arte mais elitista que conhecemos. Historicamente, no entanto, nem sempre foi assim: sua prática restrita a círculos fechados de letrados ou congêneres. Decorrência do seu processo histórico de elitização, a poesia, mesmo em sua versão popular, nunca tornou-se uma arte verdadeiramente democrática. Isto porque, dado o seu caráter essencialmente revolucionário, tanto ao nível da operação que encerra na linguagem quanto no largo espectro de motivos em que o poeta investe para a sua criação, a poesia sempre foi cuidadosamente afastada do povo. É que o povo, tido como perene ameaça aos poderes constituídos, precisa de cultura para poder degustar a arte da poesia. E como geralmente a tarefa da educação do povo é facultada aos tais poderes constituídos, estes a sonegam às massas como forma de controle político. Resultado: o povo quer, necessita, mas não tem acesso à poesia.
E o futebol? Acontece ao futebol, como já dissemos, algo semelhante e ao mesmo tempo diferente do que sucede à poesia. Admitindo que o futebol é uma arte – e é assim que o entendo – percorramos a sua história. O futebol chegou ao Brasil no fim do século passado trazido por membros da elite brasileira que estudavam na Europa. Aquela história que todo mundo já conhece, de Charles Miller que, vindo de Londres onde fora estudar, trouxe uma bola e as regras do esporte com o intuito de introduzi-lo no País. Assim, de início absolutamente elitista, foi sendo progressivamente apropriado pelas classes populares brasileiras e por uma leva de emigrantes que aqui aportavam no início do século. Foi justamente a entrada do povo na prática do futebol – a inserção do negro, do caboclo e do branco periféricos com seus dotes raciais miscigenados – que deu a esse esporte, no Brasil, o estatuto de arte popular mais democrática do país. Foi assim, com a introdução original do jeito brasileiro de jogar, que ganhamos cinco copas do mundo em apenas um século de prática do esporte.
Já se vê aí, em itens contrapostos, o fator de diferença entre as duas artes: o caminho de elitização que percorreu a poesia e, ao contrário, o percurso de popularização que seguiu o futebol. Quem porventura disso duvidar, faça a seguinte experiência: entregue dois livros de poemas a seu filho e veja o que acontece. Ele irá para o meio da rua, fará duas traves com os livros e começará uma deliciosa pelada em companhia dos amigos. Nada de errado com o seu pimpolho, arguto leitor. Sendo este o caso, relaxe, observe com cuidado a tal pelada e descobrirás maravilhado o fator de semelhança da poesia com o futebol.
Sobre esse segundo ponto, contudo - a ligação pela semelhança do futebol com a poesia -, trataremos no próximo encontro, já que a editoria de A União nos franqueou um espaço semanal para discutirmos aqui a relação do futebol com a cultura de um modo geral. Fiquemos, por enquanto, a propósito da relação poesia e futebol, com este recado de um poeta paraibano, que resume o que pode acontecer na pelada do teu filho. Ou seja, como a maneira dele jogar, tratar ludicamente a bola, se assemelha às investidas do poeta com a palavra para a feitura de um poema. O poeta, no caso, é o nosso saudoso Eulajose Dias de Araújo. Leiamos seu texto:

Palavrasbolas

As palavras não são
bolas de futebol,
mas eu jogo com
as palavras como
se bolas elas fossem...

Futebolescas as palavras
se tornam bolas
para todos os acertos
de concordância ou sintaxe,
gramática jogando
com matemática quase.

Gol de pensamento
são as palavras no tempo,
ou no tempo de tempo,
ou no tempo de tempo,
são as palavras:

palavrasbolas paraboladas
jogando palavreadas.
Foto de Luis Humberto

Um comentário:

Regineide Cavalcante disse...

Os poetas, ao escreverem, buscam uma cadência, é como se tocassem tambores para fazer com que o leitor perceba a sonoridade do texto.Você faz isso, eu diria que, de forma artesanal.

Só por informação, eu, ainda, não gosto de futebol! :):)